Na exposição Furo, artista volta-se à investigação da linguagem fotográfica; registros tomam o próprio suporte como tema
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| Sem título, série Furo, de Jordi Burch, 2017. Pigmento sobre papel de algodão |
O
artista Jordi Burch fotografa. Seus registros não apenas refletem
o esgotamento da estética realista, pautada pela ideia de
representação, mas revelam a importância do processo e do gesto na
produção de imagens. Em Furo, exposição individual que
apresenta entre 16 de agosto e 2 de outubro na Janaina Torres Galeria, o
português se aventura em um percurso investigativo pela linguagem
fotográfica.
Com
curadoria de Marta Mestre, a mostra reúne 14 fotografias e 1 vídeo,
resultado de uma pesquisa ainda em curso do artista. Nela, ele explora
as múltiplas possibilidades da prática fotográfica, voltando-se, muitas
vezes, para o processo do fotografar e para a própria matéria, sem
ater-se, necessariamente, a fins e objetos específicos.
"É
de ensaio que esta exposição trata. Composta por trabalhos recentes,
aposta em uma pequena unidade de sentidos sobre o carácter latente da
matéria fotográfica – essencialmente luz e tempo –, e convida o
espectador a refazer mentalmente os nexos deste vocabulário provisório,
entre índice e paisagem", pontua a curadora.
Na
primeira série, por exemplo, um pequeno círculo se desloca, quase
indistinto, sobre um fundo claro. Concebida a partir do processo de
quimigrama, no qual a imagem eÌ criada no ato da revelação, a sequência
de cinco fotografias surge não pelo funcionar de uma câmera, mas por
uma intervenção manual – tal como num desenho –, no próprio suporte do
papel fotográfico.
Em
um novo conjunto, tem-se, à primeira vista, uma paisagem marcada pela
justaposição de duas figuras cônicas: as fotografias colocadas à frente
do interlocutor se assemelham a vultos de montanhas. Também produzidas
pela técnica do quimigrama, as imagens são transpostas pelo artista a
uma página de caderno, em um claro questionamento acerca dos limites da
fotografia.
O
projeto procura colocar em evidência uma prática intransitiva do
fotografar — um ato que se basta e volta-se ao suporte fotográfico em
si, investigando as potencialidades dos gestos interventivos sobre a
matéria da fotografia. Nesse sentido, o gesto encaixa-se entre o agir e o
fazer, entre o espasmo e o cálculo, escancarando aquilo que a linguagem
tem de lapso e impreciso: furos.
Em
outra obra, a imagem de um quarto. Sobre o chão e a cama, fragmentos do
teto. Jordi faz o registro não de um instante único, determinante, mas
de uma ação transcorrida. O momento aqui já não importa e a
fotografia suporta em si uma história – várias histórias. O que terá
ocorrido para que o teto cedesse? Quem estava no cômodo?
Os
registros de Burch despertam estranhamento e devaneio, convidando o
visitante a deslocamentos vários. É o que ocorre, por exemplo, quando
diante de uma imagem negra – negativo de uma foto mal sucedida. Nela,
restos de poeira se somam a impressões digitais criadas pela manipulação
da própria película, dando origem a um céu noturno, completamente
tomado por estrelas.
"A
fotografia apresentada nesta mostra aproxima-se do campo da
configuração. Não se trata mais de criar representações de objetos
externos à linguagem, mas de, a partir da mesma, descobrir imagens que,
por vezes inadvertidamente, configuram mundos possíveis", afirma o
próprio artista.
Uma seleção de Furo também
será apresentada pela Janaina Torres Galeria na 12ª edição da
SP-Arte/Foto. O evento acontece entre os dias 22 e 26 de agosto, no
Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, reunindo em um único espaço
alguns dos principais nomes da fotografia contemporânea.
Sobre o artista
Nascido
em 1979, em Barcelona, na Espanha, Jordi Burch foi para Portugal aos
quatro anos de idade e lá iniciou sua prática artística. Há cerca de
oito anos vive e trabalha na cidade de São Paulo. O deslocamento é
uma constante em sua obra. O tema surge em termos espaciais, entre
cidades e países, e no trânsito do olhar e dos sentidos do espectador.
A
cada novo projeto, o artista busca um diálogo entre a memória e o
instante presente, criando ressignificações em sua fotografia. Por meio
de interpretações do espaço, da literatura, da arquitetura e do
indivíduo, seu trabalho forma uma grande atmosfera que diz respeito à
coletividade.
Burch
participou de residências artísticas em renomadas instituições, como o
Triangle Network e o Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. Foi membro
do coletivo de fotógrafos Kameraphoto desde seu início, em 2007, até
seu fim, em 2015. Por quatro anos consecutivos, de 2004 a 2008, foi
convidado a integrar o seleto grupo de fotógrafos do Joop Swart
Masterclass, promovido pela World Press Photo.
Apresentou
exposições individuais em espaços como a Fundação Iberê Camargo, de
Porto Alegre (2018); Museu AfroBrasil, de São Paulo (2013); Centro
Cultural de Luanda, da Angola (2010); e Casa Fernando Pessoa,
de Lisboa (2007). Integrou mostras coletivas no Centro Cultural de
Belém, em Portugal (2017); Bienal de Arquitetura de Veneza, na Itália
(2016); Festival Valongo, em Santos (2016); Fundação EDP, de Portugal
(2011); Photo España, de Cuenca, na Espanha (2011); Paraty em Foco, de
Paraty (2009) e na Fundação Eugénio de Almeida, de Évora, em Portugal
(2009).
Serviço:Furo, individual de Jordi Burch, com curadoria de Marta MestreLocal: Galeria Janaina TorresEndereço: Rua Joaquim Antunes, 177 / cj 11, PinheirosAbertura: 16 de agosto, quinta-feira, das 19h às 22hPeríodo expositivo: de 16 de agosto a 2 de outubroVisitação: de segunda a sexta, das 10h às 19h e aos sábados, das 11h às 15hTelefone: (11)3064-2507Entrada gratuita
SP-Arte/Foto 2018Preview: 22 de agosto (apenas para convidados), das 11h às 22hAberta ao público de quinta a sábado (23, 24 e 25), das 13h às 21h; e ao domingo (26), das 13h às 20hShopping JK Iguatemi | 3º pisoAv. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Vila Olímpia, São Paulo, Brasil
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