Mostra
toma como ponto de partida o círculo de artistas incentivados
pelo colecionador e crítico de arte Theon Spanudis;
paralelamente, intelectual ganha biografia que mapeia o espaço
cultural-artístico formado em seu entorno
Crítico e colecionador de arte como poucos, Theon Spanudis era dono de uma visão privilegiada. Frequentador de ateliês de pintores, tornou-se figura singular no mundo das artes, sendo um dos primeiros a incentivar e a adquirir obras de nomes ímpares da arte brasileira, tais como Alfredo Volpi, Mira Schendel, Niobe Xandó, Rubem Valentim, entre outros. Estes são alguns dos artistas que integram a coletiva O visionário Theon Spanudis e seu grupo de artistas, que a Galeria Berenice Arvani recebe até 20 de maio. A exposição marca também o lançamento do livro O círculo de Theon Spanudis, que traz a biografia do crítico, além de ensaios, depoimentos, fotos e alguns dos destaques de sua importante coleção.
Com
curadoria de Antonio Carlos Suster Abdalla, a exposição segue um viés
histórico e apresenta cerca de 40 trabalhos, de um corpo de 17
artistas: Alfredo Volpi, Arnaldo Ferrari, Bárbara Spanoudis, Eleonore
Koch, Fang, Fernando Odriozola, Jandyra Waters, José Antônio da Silva,
Luiz Sacilotto, Mira Schendel, Montez Magno, Niobe Xandó, Ramón Cáceres,
Rubem Valentim, Rubens Azevedo, Ubirajara Ribeiro e Valdeir Maciel.
"Psiquiatra
por formação, Spanudis foi um crítico e colecionador desbravador, um
homem sensível, de ampla cultura, que não se atinha a modismos, visões
definitivas ou fechadas. No sentido contrário à excessiva valorização
dos critérios passageiros do mercado de arte, tinha absoluta liberdade
de opinião", afirma Abdalla.
Para
o curador, Spanudis foi um grande catalisador de influências. Filho de
pais gregos, nutria e vivenciava a ideia de mestre e discípulos. Era
fiel representante dessa forma de convivência fraterna e intelectual,
aproximando-se de alguns artistas e contribuindo para a formação de seus
pares, muitos também colecionadores. "Ele foi um apaixonado sem amarras
e reuniu, ao seu redor, um elenco memorável de artistas e um invejável
círculo de amigos, distribuindo seu legado cultural a todos que tivessem
sensibilidade e estivessem interessados na construstrução de uma
cultura, de fato, perene", pontua Abdalla.
Mais
do que colecionador, Spanudis apoiou vários dos artistas que o
surpreenderam, seja pela obra, seja pela visão que tinham acerca da
arte brasileira. Aos poucos, inseriu-os em seu ciclo social. Jandyra Waters e Valdeir Maciel
foram dois pintores dentre os mais próximos do crítico. Do ponto de
vista pictórico, ambos tinham em comum o recurso do desenho geométrico,
estética pela qual Spanudis nutria destacada preferência e fidelidade. À
dupla, juntava-se também Rubem Valentim, pintor que, a
seu ver, conquistara o mais alto nível das artes plásticas
contemporânea internacional e mundial por incorporar em seus trabalhos
os símbolos religiosos afro-brasileiros.
"O
caminho do construtivismo brasileiro absolutamente abstrato que
Valentim iniciou (...) já traz novos e saborosos frutos inéditos, na
criatividade tão rica de um Valdecir Maciel e de uma Jandyra Waters.
Rubem Valentim é precursor de todos eles. Valentim abriu esse caminho
que terá, sem dúvida, continuadores singulares no futuro. Rubem
Valentim, um gênio do construtivismo religioso brasileiro", declarou
certa vez o crítico.
Recém-chegado da Europa, sem qualquer domínio da língua portuguesa, encantou-se com o trabalho de Alfredo Volpi. A
relação que mantinha com o pintor era de grande proximidade, apesar da
personalidade reclusa do modernista. Foi um dos poucos a frequentar seu
ateliê e, certa vez, comprou dele toda uma exposição, então em cartaz na
famosa Galeria Domus.
"Volpi
é um dos maiores coloristas do mundo e do nosso tempo (...) suas
qualidades de grande colorista desenvolveram-se plenamente e amplamente
após ter superado a sua fase inicial populista e paisagista, enfim, após
ter superado a sua pintura tonal e desenvolvido uma pintura plana de
coloridos diretos", publicou o crítico, em 1964.
Spanudis tentou repetir a façanha compulsiva em uma individual do principiante José
Antônio da Silva,
a seu ver, "o maior gênio primitivo que o Brasil conheceu". Teve,
entretanto, seus planos confrontados por Pietro Maria Bardi, com quem
fez acordo para dividir os trabalhos apresentados na mostra.
"Sua
obra, tão rica e diversificada em assuntos, vibra com um magismo
telúrico extremamente forte, dinâmico e inquieto (...) Um vigor e um
canto da exuberância desse mistério que é a natureza, como nunca foi
expresso no Brasil e no mundo inteiro", chegou a escrever o
colecionador, referindo-se ao trabalho do pintor do interior paulista.
Biografia
A exposição marca ainda o lançamento do livro O círculo de Theon Spanudis,
também organizado por Antonio Carlos Suster Abdalla. Editada pela Cult
Arte e Comunicação, a publicação traz um relato biográfico e ainda um
texto do colecionador Ladi Biezus, fotos e trechos críticos de Spanudis
referentes a cada um dos artistas da mostra.
O
ensaio traça um mapa do espaço cultural-artístico formado em torno da
figura singular de Theon Spanudis e faz uso de uma metáfora simbólica,
que toma o colecionador como eixo universal - ponto de equilíbrio
gravitacional em torno do qual orbita uma constelação de estrelas de
grandezas diversas.
Visionário,
era capaz de enxergar o brilho de um astro anos-luz à frente do
establishment ditado por museus e pela academia. "Ele não era
indiferente a qualquer manifestação verdadeiramente artística, por isso
esse sistema astro-imaginário subsistia pela força do apreço que
sentia pela obra dos artistas que ele respeitava e amava",
aponta Biezus.
Para
além das estrelas de seu círculo mais estreito, o livro apresenta
também inúmeras ligações tangenciais, marcadas pelas afinidades destes
artistas com os demais. Nesse contexto, surgem, por exemplo, figuras
como Tarsila do Amaral, Milton Dacosta e Maria Auxiliadora.
Entre
as histórias narradas, há uma que revela a tremenda generosidade do
crítico em prol das artes brasileiras. Tentado a criar um instituto que
acolhesse as obras que colecionava após sua morte, mas receoso acerca da
gestão desse patrimônio, Spanudis acabou optando por doá-las ao
Museu de Arte Contemporânea, vinculado à Universidade de São Paulo
(MAC-USP). Parte de seu acervo, que reunia mais que 450 obras, foi
transferido à instituição já em 1979; o restante só foi incorporado ao
acervo do museu após sua morte, em 1986.
Theon Spanudis
Crítico
de arte, colecionador, tradutor, poeta e psiquiatra, Theon Spanudis
(1915-1986) nasceu em Esmirna e cresceu em Atenas. Estudou Medicina em
Viena, especializando-se em Psicanálise. Em 1950 veio para São Paulo a
convite da Sociedade Brasileira de Psicanálise, na qual lecionou até
1957. A partir daí, decidiu dedicar-se exclusivamente à crítica
de arte e à produção literária.
Colaborou
para periódicos como as revistas AD Arquitetura e Decoração, Habitat,
Cavalo Azul e Convivium, além do suplemento literário do jornal O Estado
de São Paulo. Nos anos 1960, sua produção textual expandiu-se para a
poesia. Desde jovem, escrevia textos literários e poemas, mas a
publicação de suas obras deu-se no Brasil e, de modo geral, em
português.
Paralelamente
à produção poética, Spanudis seguia como personalidade importante para
muitos artistas cujas obras colecionava. Em 1978, realizou a primeira
exposição que reuniu destaques de sua coleção no Centro de Artes Porto
Seguro. A exposição, denominada Construtivistas e Figurativos da Coleção Theon Spanudis,
apresentou obras de Alfredo Volpi, Arnaldo Ferrari, Bárbara Schubert
Spanoudis, Eleonore Koch, Fang, Fernando Odriozola, Jandyra Waters, José
Antônio da Silva, Mira Schendel, Niobe Xandó e Valdeir Maciel.
Em 12 de setembro de 1986, Theon Spanudis faleceu em São Paulo.
Curador
Pesquisador
em Artes Visuais e especialista em Museologia, Antonio Carlos Suster
Abdalla é curador independente. Já atuou em diversos museus, galerias e
centros culturais ao longo de sua carreira, entre os quais o Centro
Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-Rio), o Museu
Brasileiro da Escultura (MUBE), o Museu de Arte Moderna de São Paulo
(MAM), o Museu Oscar Niemeyer (MON), de Curitiba, e a Pinacoteca do
Estado de São Paulo.
Abdalla
foi também responsável pela pesquisa e catalogação de coleções de
artistas e particulares, dentre os quais de Bárbara Spanoudis, Eduardo
Azevedo, Erich Brill, Fernando Odriozola, Marcello Grassmann, Niobe
Xandó, Jacques Douchez, Burle Marx e Alícia Rossi. Entre os livros
publicados que contaram com sua contribuição e organização, Sonya
Grassmann; Capital: Patrimônio Histórico de São Paulo; Lei Rouanet:
Percurso e Relatos; Arnaldo Ferrari, Fernando Odriozola – sombras
reveladoras e Niobe Xandó (Centenário de nascimento).
Serviço
Exposição O visionário Theon Spanudis e seu grupo de artistasLocal: Galeria Berenice ArvaniEndereço: Rua Oscar Freire, 540 | JardinsAbertura: 10 de abril, a partir das 19hPeríodo expositivo: de 11 de abril a 20 de maioDias e horários de visitação: de segunda à sexta, das 10h às 19hContato: (11) 3082-1927 | 3088-2843
Livro O círculo de Theon Spanudis
Autores: Antonio Carlos Suster Abdalla e Ladi BiezusCoordenação: Edith Azevedo ZogbiFotografias: Fabio Praça, Sérgio Guerini, Nelson AguilarEditora: Cult Arte e ComunicaçãoAno: 2018Edição: 1ISBN: 978-85-65706-08-7Número de páginas: 272Preço sugerido: R$ 50
Autores: Antonio Carlos Suster Abdalla e Ladi BiezusCoordenação: Edith Azevedo ZogbiFotografias: Fabio Praça, Sérgio Guerini, Nelson AguilarEditora: Cult Arte e ComunicaçãoAno: 2018Edição: 1ISBN: 978-85-65706-08-7Número de páginas: 272Preço sugerido: R$ 50
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