Compositor e violonista é acompanhado por Christiano Caldas, Aloizio Horta e André Limão Queiroz
Quinta-feira,
por volta das 11 da noite, sem muita pontualidade que é para não
comprometer o clima de liberdade. Quem gosta de música sabe que em Belo
Horizonte, no bar A Casa, é dia e hora da DelegasCia. Com patente, mas
sem marra, o violinista, compositor e arranjador Thiago Delegado se
cerca de amigos para a roda instrumental mais conhecida da cidade.
Aloizio Horta no contrabaixo, Christiano Caldas nos teclados e André
Limão Queiroz na bateria completam o time, que se abre a participações
espontâneas. Foi nesse território e sob essa inspiração que foi criado e
desenvolvido o repertório de Sambetes Vol.1, que está sendo lançado em CD e vinil.
O
disco foi gravado em São João del-Rei, na região do Campo das
Vertentes, no único estúdio do estado com tecnologia totalmente
analógica. A escolha não foi só técnica, mas de alma. Sambetes Vol.1 é
um disco que dá sequência a uma linha de música instrumental
sofisticada que vem de antes da bossa nova, sofre influência do som
feito nas pequenas boates do Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, e
depois se mistura com o jazz e outras influências. Pré-bossa, bossa e
pós-bossa. Se o samba é a tristeza que balança, como definiu Vinicius de
Moraes, nos sambetes ela balança ainda mais. O bolachão é uma
consequência natural dessa história.
As
composições trazem a marca de sua gênese notívaga. São temas que Thiago
Delegado apresentou aos amigos e que foram testados na mais exigente
pista de provas da música, a noite. Com estrutura aparentemente simples,
com temas cantantes, diretos, cheios de suingue, trabalhados pelos
instrumentistas em improvisos criativos, os sambetes resgatam uma
felicidade que anda rara no campo da música. O prazer de ouvir e tocar
parece ser o mesmo. Enquanto os músicos se divertem, o público incorpora
uma dose a mais de alegria com a música. Sambetes Vol.1 não é disco para guardar, é desses que vão esquentar o prato - ou as plataformas -, rodando sem parar.
O
violão de Thiago comanda os arranjos, que pela base que se mantém em
todo o álbum, cria uma sonoridade muito peculiar, com destaque para os
timbres dos teclados Rhodes e Hammond de Christiano Caldas. Contrabaixo e
bateria trazem a melhor memória da música instrumental dos anos 1960 e
1970, mas com muitas contribuições contemporâneas, originais e cheias de
ideias. Todas as composições são de Thiago Delegado, que divide a faixa Afrosambete, com Aloizio Horta.
Uma das influências do disco, Roberto Menescal tem sua presença registrada na música que abre os trabalhos, o divertido Sambete do Menexca, com direito a citações de clássicos do autor de O Barquinho.
Delegado foi apresentado a Menescal por Christiano Caldas, que havia
trabalhado com ele. Do encontro surgiu o convite para o lançamento no
Rio de Janeiro do disco Thiago Delegado Trio ao vivo no Museu da Pampulha.
Sempre atento aos novos (ele é dos maiores produtores da música
brasileira e ouvido infalível para descobrir talentos), Menexca não só
compareceu como marcou presença como convidado em Viamundo, terceiro álbum de Thiago Delegado.
Feito em homenagem à sobrinha Maria Luiza, o tema Sambete da Malu é
considerado pelo autor como o mais violonístico do disco. Uma homenagem
que exigiu emoção do compositor e virtuosismo do intérprete. A única
canção com letra é Garoto Matheus, que tem história
para contar. Delegado escreveu a música em resposta a uma mensagem
elitista e ameaçadora de um morador do “bairro de classe média”,
incomodado com o bloco de Matheus Brant, o Me Beija Que Eu Sou
Pagodeiro. Do violão para as redes foi um pulo e a canção ajudou a lavar
a alma de quem gosta de alegria, que parece ser artigo raro nas redes
antissociais. Para completar, deu a Thiago Delegado a oportunidade de
cumprir seu desejo de “ser João Gilberto”, sussurrando como o ídolo pela
primeira vez em disco.
Disco de gênese coletiva, que só podia ter surgido entre amigos, Sambetes Vol. 1 propõe outros diálogos estéticos. Afrosambete é um tributo aos afrosambas de Baden e Vinicius, e incorpora uma nova rítmica, percussiva e com divisões mais trabalhadas. Sambete Americano começa como choro e logo se abre ao fraseado do jazz e de ritmos americanos, num encontro de igual para igual .Sambete nº 2 é puro suingue joãodonatiano, que faz a cama para improvisos espertos e bem-humorados.
E como humor é a marca em tudo o que Delegado faz, não falta nem mesmo uma homenagem ao pagode, no sambete Maguá no Pagode,
que espera letra do homenageado. “Descobrimos nessa música uma
ascendência mineira”, filosofa Delegado. E foi também de uma
brincadeira, na relaxada Sambete Preguiçoso, que surgiu o tema que mais tem agradado o público que experimentou a obra em progresso nas noites de quinta-feira n’A Casa.
O
clima de alegria é patente no resultado do álbum. Mas nem tudo foi
festa durante a gravação São João del-Rei. “Foi um pouco tenso”, lembra
Thiago Delegado. “Fizemos cerca de oito ensaios, além da nossa tocada
semanal. Estávamos prontos, mas o desafio de gravar todo o disco em um
só dia, com as dificuldades da gravação analógica, trouxe um pouco de
tensão para o processo”. Até terminar a primeira faixa, foram mais de
três horas. Os trabalhos se estenderam até às 3 da madrugada. Com apelo
explícito aos santos barrocos das igrejas da cidade para sanar um ruído
no baixo. Missão cumprida, a comemoração foi até o meio-dia.
Para terminar, Thiago Delegado apresenta o verbete sambete de
seu dicionário musical particular: “São sambas pequenininhos, com temas
bem definidos, levada divertida, muito suingue e espaço pra
improvisação”.
Memória afetiva
Ao ouvir Sambetes Vol. 1, quem
gosta de música instrumental brasileira vai se perder (e se encontrar)
buscando referências, dos pianistas Luiz Eça, Dom Salvador, Tenório Jr.,
Sérgio Mendes e, sobretudo, João Donato, sem esquecer dos organistas Ed
Lincoln e Walter Wanderley. As batidas de Milton Banana, Edison
Machado, Dom Um e Airto Moreira. Os desenhos da linha de baixo de Luiz
Chaves, Tião Neto, Humberto Clayber, Luiz Marinho e Edson Lobo. O violão
de Baden Powell e Roberto Menescal, os arranjos de Moacyr Santos e
Eumir Deodato. Só gente boa.
São
nomes que trazem a memória de um som de grupos tocavam ao mesmo tempo,
em várias casas vizinhas de Copacabana, batizados como Som 3, Sansa
Trio, Sambossa 5, Sambrasa Trio, Quarteto Bossamba, Sexteto Bossa Rio,
entre outros. A música instrumental brasileira ajudou a criar a bossa
nova, mas foi, segundo alguns historiadores, a primeira vítima de seu
reconhecimento internacional. Com o sucesso das canções e dos cantores,
os músicos foram compor um luxuoso segundo plano para o desfile
internacional da Garota de Ipanema. Muitos dos instrumentistas citados
acima foram para os States ensinar o jazz a sambar. O resto é história.
SAMBETES 1
1 - Sambete do Menexca
2- Sambete da Malu
3 -Maguá no Pagode
4 - Sambete Preguiçoso
5 - Afrosambete
6 - Sambete Americano
7 - Garoto Matheus
8 - Sambete nº 2
Todas as faixas são composições de Thiago Delegado, exceto Afrosambete, parceria de Thiago Delegado e Aloizio Horta
Todas as músicas são tocadas por:
Thiago Delegado – Violão de sete cordas
Christiano Caldas –Rhodes e Hammond
Aloizio Horta –Contrabaixo
André Limão Queiroz – Bateria
Serviço: Show de lançamento de Sambetes Vol.1
Data: 26 de abril de 2018 - quinta-feira
Horário: 20h30
Local: Teatro Bradesco
Classificação etária: livre
Classificação: livre.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

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